Gouvyas Vinhas Velhas 2006

Com o início de cada ano civil, é tradição enófila provar os vinhos que se fizeram há uma década atrás. É hora de ir à cave procurar aquelas garrafas que se guardaram com tanta dedicação para ver como enfrentaram a prova do tempo. Sendo assim, é com naturalidade que os primeiros meses deste ano sejam marcados por diversas provas de vinhos do ano de 2006. Além do habitual painel anual que a Revista de Vinhos leva a cabo nas primeiras edições de cada ano, também algumas provas de grupos de enófilos têm surgido nos escaparates das redes sociais, o que ajuda por servir de referência para as garrafas que temos em casa. Hoje, é por isso mais simples perceber, se aquele vinho que nos desiludiu era um problema da nossa garrafa ou se era mesmo o vinho que, dez anos depois, segue em queda livre.

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Seguindo esta premissa, no âmbito do último encontro da #provados7 , que tive o prazer de participar, foram a jogo um conjunto de vinhos tintos de 2006. Como habitualmente os vinhos foram provados e classificados às cegas.

Habituei-me, ao longo desta última década, ouvir dizer que o ano de 2006 não tinha sido um bom ano. Muito calor, desidratação das uvas, teores alcoólicos elevados, etc…, o que resultava numa desgraça generalizada. Era com a expectativa limitada por estes indicadores que se partia para a prova. E a verdade é que apesar de se notar o calor do ano em alguns dos vinhos, no geral as piores expectativas não se verificaram, havendo mesmo lugar para boas surpresas. Não foi decididamente uma grande ano, mas a avaliar por esta curta amostra também parece não ter sido assim tão mau como se apregoou.

Destes seis tintos, o meu favorito foi o Gouvyas Vinhas Velhas (17,5 – a minha classificação, não a do painel). Um tinto do Douro, produzido por João Roseira (Quinta do Infantado) e pelo enólogo Luís Soares Duarte (Perfil e Momentos) no âmbito do projecto comum Bago de Touriga. Com uvas provenientes de diferentes parcelas de vinhas velhas localizadas em Vale Mendiz e Soutelo do Douro, no Cima Corgo, foram produzidas pouco mais de 3000 garrafas. Para dez anos está ainda com bastante concentração de cor. Nariz rico e complexo. Com a fruta madura em bom diálogo com elegantes notas balsâmicas e vegetais. Também aparece um ligeiro couro que lhe dá carácter. Boca surpreendentemente viva, com taninos muito afinados, fresco e intenso, travo especiado, para um final longo e de grande categoria. Não será concerteza o vinho mais elegante do mundo, há aqui muito vigor e robustez, o que em conjunto com um lado frutado mais presente pode sugerir algum peso, mas tudo isso é contrabalançado por uma acidez bem presente que lhe dá garra e o torna muito atractivo. Para um ano menor está de excelente saúde.

Quanto aos outros, a maior surpresa foi o Ramisco de Colares da Fundação Oriente (17) que com o seu estilo leve e fino, de cor aberta, muito elegante e persistente, cativou a todos. Um vinho ainda com pernas para andar. Boa imagem de si também deixou o Diga? (17) de Carlos Campolargo, um Petit Verdot que se mostrou elegante e de boa frescura, com notas vegetais a dar vida ao conjunto. Depois um Herdade de São Miguel Private Collection (17) a mostrar-se a grande nível e também a surpreender-me. Carácter alentejano bem expresso no aroma, facilmente identificável mesmo em prova cega. Carregado na cor, aroma mais “quente”, mas muito bem suportado por uma acidez equilibrada e um final de muito boa persistência. O Quinta do Monte d’Oiro Reserva (16,5), começou envergonhado, foi crescendo com a garrafa aberta e terminou em bom plano. Pouco a acrescentar ao que tinha escrito recentemente sobre ele. Curiosamente, agora às cegas, voltou a merecer a mesma classificação. E por ultimo o Pintas (16,5), que foi mesmo a única desilusão da noite, tendo em conta essencialmente o preço que custa. Notas fumadas e tostadas, algum vegetal fresco, cheio e concentrado, com um final de relativa persistência. Foi também prejudicado, diga-se, pela comparação com os restantes.

 

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