Os 10 Melhores Brancos do Dão em 2016

Quais são os melhores vinhos brancos do Dão? A pergunta já tinha sido feita da mesma forma para os tintos do Alentejo e a resposta saiu em forma de uma lista de dez referencias escolhidas por um conjunto de convidados que tiveram a simpatia de aceitar este desafio. Desta vez o exercício foi mais ambicioso e estendi o convite a um numero mais alargado de pessoas, seja enquanto profissionais no sector do vinho, seja enquanto consumidores e reconhecidos enófilos. De fora ficou a produção, apenas porque ao inclui-la não iria querer deixar ninguém de fora e isso tornaria incomportável a gestão desta empreitada. Já assim foi uma aventura e tanto, mas que também deu muito prazer.

O Dão é unanimemente considerado como uma região onde nascem alguns dos melhores vinhos que se produzem em Portugal, mas com a naturalidade com que se assume esta evidência surge também a incontornável questão do porquê dessa qualidade não se reflectir nas escolhas dos consumidores. As razões são as mais variadas e vão sendo amiúde debatidas, mas hoje quero fugir à complexidade do tema e destacar apenas a excelência dos vinhos que couberam nesta lista.

Uma lista impressionante, que muito me orgulha, pois constam nela alguns dos melhores vinhos brancos que se produzem em Portugal. Pela forma informal como foi concebida é uma lista sem qualquer pretensão, apenas o resultado de um exercício curioso onde, no papel de consumidores, um conjunto de individualidades através das suas preferências ajudou a escolher 10 vinhos que expressam o potencial de uma região, que indiscutivelmente reúne condições excepcionais para produzir brancos de mesa.

A coisa dividiu-se em dois. Hoje os brancos, nas próximas semanas os tintos.

1 – Quinta dos Carvalhais Branco Especial

Dão

Foi, com alguma distância, o vinho favorito da maioria das mais de quarenta pessoas que ajudaram a elaborar esta lista e aparece destacado no topo dos melhores brancos produzidos na região. Sem indicação de ano de colheita, este é um vinho produzido pela Sogrape na Quinta dos Carvalhais e nasce a partir de uma selecção feita por Manuel Vieira e Beatriz Braga de Almeida, que juntaram três lotes de 2004, 2005 e 2006 para criar este exclusivo vinho. Foram editadas apenas 3000 garrafas e cada uma ascende a 30€, um preço alto para um branco português mas que ajuda a estabelecer a aura de exclusividade dos grandes vinhos.

Há notas de barrica e de fruta muito madura, há muito volume e estrutura, mas também há uma acidez efectiva, num perfil cheio e evoluído, que agarra o vinho e o coloca no olimpo. É um estilo diferente, muito próprio e, diria, para verdadeiros apreciadores.

2 – Casa da Passarella O Fugitivo Garrafeira Branco 2013

A Casa da Passarella é uma antiga propriedade da região do Dão, que reza a história ajudou com a qualidade dos seus vinhos de então a definir a própria região demarcada. Depois dos momentos mais conturbados das ultimas décadas, é com redobrado prazer que assistimos ao regresso desta casa histórica à ribalta. O trabalho de enologia da equipa de Paulo Nunes tem sido alvo de elogios um pouco por todo o lado e a verdade é que dá origem a alguns dos melhores vinhos do Dão da actualidade. Os Fugitivo, uma linha de vinhos especial que procura recrear os antigos Garrafeira, foi das coisas mais excitantes e bem sucedidas destes últimos tempos no panorama vínico nacional e o resultado está à vista. Unanimidade quanto à qualidade dos mesmos e a valer a segunda posição nesta lista.

Encruzado de vinhas velhas, num estilo duro mas original, cheio, distinto, pleno de carácter. Um hino à região mas não só, também a todos os brancos portugueses.

3 – Primus Branco 2013

Primus Dão

Álvaro Castro é uma das principais figuras do vinho do Dão e por isso é natural encontrar os seus vinhos no topo de qualquer lista sobre os melhores da região. A Quinta da Pellada (século XVI !) é um local privilegiado onde a altitude e a convergência de vários climas proporcionam condições excepcionais às vinhas velhas da propriedade. A marca Primus nasce na colheita de 2006 e rapidamente se torna uma das maiores referências de vinhos brancos portugueses. O vinho é produzido a partir de uma vinha velha da Quinta da Pellada, com cerca de 20 castas misturadas, onde a predominância é de Bical e Encruzado. A colheita de 2013 resultou num branco excepcional, como dei conta aqui depois da recente prova vertical deste vinho que tive oportunidade de fazer. O Primus tem tido uma grande afinação no perfil e hoje tem consolidado o seu estatuto como um dos grandes vinhos brancos produzidos em Portugal.

As notas florais e frutadas denunciam-lhe a juventude, mas a frescura e acima de tudo a elegância não enganam. Um vinho com um longo caminho pela frente mas que apresenta uma grande classe e já dá muito prazer a beber.

4 – Druida Encruzado Branco 2013

Vinho de garagem que nasce de um projecto de autor pela mão de dois colegas e amigos do mundo do vinho. Nuno Mira do Ó e João Corrêa, enólogos da Companhia das Quintas, tinham a vontade de fazer um vinho à sua imagem, sem pressões comerciais, que expressasse na plenitude as vinhas e o local onde estas se encontram. Uma das regiões escolhidas para esta aventura foi o Dão, onde encontraram nas vinhas de Encruzado da Quinta de Turquide, em Silgueiros, o local ideal para abraçarem esse projecto. Produzido à moda antiga, com o minimalismo digno de uma antiga adega de pedra, conquistou desde o primeiro minuto consumidores e crítica. São apenas 4000 garrafas de um vinho que expressa no melhor sentido a autenticidade da região (Actualmente, após o falecimento de João Corrêa, Nuno do Ó assume sozinho o projecto).

Mineral, alguns citrinos, seco e pujante. Cheio, vigoroso, vivo e sóbrio, um branco de inverno com uma acidez e mineralidade à altura da prova do tempo. 

5 – Casa da Passarella Villa Oliveira Vinha do Províncio Branco 2012

Villa Oliveira foi a primeira marca da Casa da Passarella. Criada originalmente há mais de cem anos é uma marca que carrega história e que foi, em muito boa hora, recuperada pelos novos proprietários (2008) para dar nome aos topos de gama da casa. O Vinha do Províncio é um vinho de edição limitada e como o nome sugere de uma vinha especifica. Mas aqui pretendeu ir-se ainda mais longe. Não se procurou apenas a excelência da vinha, mas uma selecção das melhores uvas que se conseguem extrair da própria. Um trabalho de ourives, preciso e exigente, que acaba por se reflectir num dos mais empolgantes brancos do Dão actual.

Blend natural de castas da vinha velha do Províncio. Fermentação em tanques de cimento com leveduras indígenas, curtimenta e estágio em pipas de carvalho de 600 litros. Aposta em métodos tradicionais com o objectivo de recuperar as antigas prácticas de vinificação utilizadas na região. Grande harmonia entre a mineralidade, a fruta e a barrica. Sugestões de ameixa, pêra, maçã verde, dão o mote para um branco contido, de boca volumosa e cheio de carácter. Uma jóia do Dão. 

6 – António Madeira Branco 2013

am

Mais um vinho nesta lista que nasce do romantismo de um projecto de autor. Desta feita por António Madeira, jovem engenheiro a viver em Paris, a quem a paixão pelo vinho resgatou a vontade de fazer vinho na terra dos seus pais. E foi no Dão Serrano, com a grande Estrela à espreita, que encontrou as vinhas muito velhas que recuperou para criar os vinhos com o seu nome. Garagiste convicto e grande adepto das práticas naturais, tem trilhado um caminho de sucesso com os seus vinhos e já tem lugar reservado na galeria dos melhores da região. António Madeira mantém o seu blog (excelente por sinal) onde vai dando conta das aventuras e desventuras da sua paixão.

Vinhas muito velhas no sopé da Serra da Estrela. Volumoso, distinto, com a fruta envolta num fundo imensamente mineral. Cheio na boca, de acidez afirmativa, num estilo com alguma rudeza mas cheio de personalidade.  

7 – Casa da Passarella Villa Oliveira Branco 2012

Meter três vinhos numa lista dos 10 melhores brancos de uma região é algo ao alcance de poucos. Mas o que mais impressiona é que a Casa da Passarella fá-lo com naturalidade, sem qualquer rasgo de surpresa e leva-nos até a pensar que se o seu portefólio não fosse tão diversificado (e por esse motivo a dispersar as preferências) poderia mesmo ter um vinho no primeiro lugar.

Este Villa Oliveira é outro branco impressionante. Monocasta de Encruzado. Fruta, barrica, mineralidade, tudo a encaixar na perfeição, a fazer lembrar até, por momentos, perfis de outras paragens mais cotadas. Uma boca de luxo, com estrutura e corpo, mas com um equilíbrio entre acidez e fruta que o coloca merecidamente entre a elite da região.

8 – Quinta dos Roques Encruzado 2014

A Quinta dos Roques, na família de Luís Lourenço há mais de um século, é um nome incontornável da região e por isso é com naturalidade que os seus vinhos integram esta lista. Aquando da reestruturação da propriedade na década de 80 a Encruzado foi uma das castas que mereceu a atenção dos seus responsáveis e essa aposta reflecte-se agora em vinhos estremes desta casta que demonstram muita qualidade e uma grande capacidade de guarda. Diz-se que esta edição de 2014 do Roques Encruzado é uma das melhores de sempre.

Os aromas florais e vegetais conjugam-se com a fruta cítrica e a leve untuosidade oferecida pela barrica. Tudo delicado e nada em força. Seco e austero, de acidez sólida e mineralidade ao alto, a pedir tempo, como todos os grandes vinhos da região. Parece mais ou menos unânime, apesar das intensas chuvadas de final de Setembro, que 2014 foi um bom ano para os brancos da região.

9 – Ribeiro Santo Vinha da Neve Branco 2013

É na Quinta do Ribeiro Santo, em Oliveira do Conde, Carregal do Sal, que vamos encontrar a Vinha da Neve. É a partir das uvas de Encruzado, desta vinha em particular, que nasce o topo de gama branco da empresa Magnum Vinhos. Carlos Lucas, depois de muitos anos à frente da enologia da gigante Dão Sul, dedica-se agora a este projecto próprio com a ajuda dos enólogos Lúcia Freitas e Carlos Rodrigues. Uma aventura que vai consolidando terreno e que para já coloca o Vinha da Neve entre os melhores da região.

100% Encruzado. Notas fumadas de barrica, citrinos, mineralidade. É branco encorpado, de tempo frio, com volume e estrutura de boca. Complexo e com grande acidez, em comparação com colheitas anteriores nota-se cada vez maior afinação na barrica. 

10 – Flor das Maias Branco 2012

Estamos literalmente na Serra da Estrela. A Quinta das Maias é outra das propriedades de Luís Lourenço (Quinta dos Roques) e é aqui que se produz este topo de gama branco. As vinhas velhas de Encruzado (80%), temperadas pela Malvasia, Cerceal, Verdelho e Barcelo, dão origem a este vinho de produção muito reduzida. Tem sido uma referência pouco badalada, que tem passado um pouco ao lado da crítica, mas a verdade é que aqui não foi esquecido e fecha em grande este top ten.

O único vinho desta lista que ainda não tive o prazer de provar e por isso escuso-me obviamente a comentar as suas características, mas se aqui está é porque foi escolhido por várias pessoas que lhe reconhecem a excelência. 

 

Resta-me agradecer a simpatia de todos que aceitaram com as suas escolhas ajudar-me neste exercício. Espero, acima de tudo, que esta lista possa contribuir para mais pessoas descobrirem a excelência dos grandes brancos do Dão.

Nota: Para os mais curiosos, uma pequena nota que ajuda a perceber como foi elaborada esta lista. Cada pessoa era convidada a escolher três vinhos da sua preferência, tendo como referência os grandes brancos da região. O pedido era que o foco incidisse sobre as colheitas mais recentes e a ideia foi conseguida como se pode comprovar pelos resultados. Todos os vinhos e respectivas pontuações aqui

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