Primus

Há umas semanas atrás, na companhia de alguns amigos, tudo gente do alto, tive a oportunidade de fazer uma prova vertical de todas as colheitas do vinho branco Primus da Quinta da Pellada. A prova decorreu no restaurante Dom Coutinho em Ílhavo – que não conhecia e fiquei com boa impressão – e teve a presença de Luís Lopes, enólogo da Quinta da Pellada.

Álvaro de Castro é hoje uma das maiores referências nacionais no que toca à produção de vinhos de mesa tranquilos. Consegue à sua volta, seja entre consumidores ou entre os seus pares, uma unanimidade e consensualidade nem sempre fácil de alcançar neste nosso Portugal. Este engenheiro civil de formação tomava no final dos anos 80 o comando da Quinta da Pellada e Quinta de Saes com os resultados que hoje se conhecem. Na enologia tem tido o apoio da sua filha Maria Castro, de Ataíde Semedo e mais recentemente do já referido Luís Lopes. Ao longo destes anos têm sido muitos os reconhecimentos ao seu trabalho, seja através dos mais diversos prémios e condecorações, como a mais mediática, atribuída no ano passado pelo Presidente da Republica Aníbal Cavaco Silva, de Comendador da Ordem do Mérito Empresarial.

A marca Primus nasce na colheita de 2006 e rapidamente se torna uma das maiores referências de vinhos brancos portugueses. O vinho é produzido a partir de uma vinha velha da Quinta da Pellada com cerca de 20 castas misturadas, maioritariamente Bical e Encruzado, rondando a idade da vinha os 70 anos.

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Primus 2006 – Pesado no aroma, com frutos secos e fruta madura envolvidas por notas torradas. Entrada de boca frutada, sente-se alguma complexidade mas a acidez não é suficiente para segurar o vinho e o final também não é dos mais persistentes. Fica-se com a ideia que o vinho não envelheceu da melhor maneira, está pesado e sem aquela elegância tão característica dos brancos do Dão (16 pontos).

Primus 2007 – Turvo no aspecto. Mais sóbrio e elegante no aroma que o anterior. Notas aromáticas de frutos secos e fruta em calda, leve apontamento floral. Boca a mostrar boa estrutura e acidez equilibrada. O final é de bom comprimento (16,5).

2008 não se fez.

Primus 2009 – Aroma com notas de evolução, frutos secos, sugestões de barrica, a boca mostra fruta de boa qualidade com ênfase nos citrinos, cheio e volumoso, a acidez podia ser mais acutilante e o final é de boa persistência. Este vinho acabou por ser a maior desilusão da prova para mim, não que tivesse sido o pior, longe disso, mas porque tinha ouvido maravilhas do mesmo e por isso a expectativa era de facto grande. Estaríamos na presença de uma má garrafa? (16,5).

Para ser franco, ao fim dos três primeiros vinhos, a prova estava a ficar um pouco aquém das expectativas. Felizmente que o melhor estava para vir. E em grande.

Primus 2010 – Destaca-se de imediato dos demais pela definição e elegância dos aromas. Tudo com sobriedade e muita classe. Fruta de excelente qualidade, ainda com apontamentos muito frescos a lembrar citrinos e fruta verde de caroço. A envolvência com a barrica está num ponto perfeito, de grande equilíbrio, a mostrar com clareza o resultado de um bem sucedido trabalho com a madeira. A boca está um assomo de frescura e classe. Complexa, seca e mineral, um todo de grande harmonia, com a acidez fina a limpar toda a gordura do vinho e a deixar uma sensação na boca que perdura por muito tempo. Um branco extraordinário (18). Em comparação com a última prova que fiz desta colheita em Setembro de 2013, o vinho evoluiu favoravelmente, o que mostra que o tempo de garrafa lhe está a fazer muito bem.

Primus 2011 – Mais carregado na cor que o anterior, mas muito límpido nos bonitos tons ligeiramente dourados. Aroma dominado pelas notas minerais, pólvora, pederneira, que se envolvem bem com as notas frutadas. A boca aveludada, mostra mais untuosidade e uma entrada mais quente que o vinho anterior, que no entanto é muito bem equilibrada por uma acidez com boa presença. O final é de boa persistência (17). Outro vinho que também já tinha provado, este recentemente, durante o Verão de 2015 e que nesse contexto impressionou mais.

Primus 2012 – Fumados de barrica, algum floral, mais perfumado no aroma que os restantes, a denotar ainda alguma juventude e por isso a sugerir tempo de cave. Grande frescura de boca, intenso, com travo mineral e final de boa persistência (17).

Primus 2013 – A partir desta colheita nota-se uma ligeira mudança de perfil, com o vinho a mostrar mais precisão e mais elegância. As notas de barrica deixam de surgir de forma tão intrusiva e a fruta tem liberdade para brilhar ao mais alto nível. Apesar do nariz ainda se definir a partir da riqueza de muitos aromas primários, o vinho mostra uma bela complexidade, muito preciso e focado, com uma acidez impecável e um final longo e intenso. Um dos melhores da prova (17,5).

Primus 2014 – Ainda não saiu para o mercado. Está engarrafado mas espera o momento ideal para se dar a conhecer. Na linha da colheita anterior. Apesar de muito jovem, mostra uma boa austeridade, uma ligeira rudeza que lhe dá carácter e perspectivas de futuro. A fineza e a elegância está lá. A persistência também. É esperar por ele com paciência.

Se conclusões é possível retirar de uma prova do género, com toda a subjectividade que a mesma encerra, é que tem sido constante a evolução no afinamento e frescura destes vinhos. As primeiras colheitas mostram algum peso, mas a partir de 2010 é notória a preocupação em tornar o vinho mais elegante sem beliscar o seu carácter, o que tem sido conseguido. O perfil parece estar encontrado e a colheita de 2013 define-o muito bem.

Resta acrescentar que estes são vinhos de produções reduzidas, com muitas colheitas a não chegarem às 4000 garrafas o que não torna fácil encontrar colheitas mais antigas no mercado. Ainda assim, bem procurado, é possível encontrar algumas garrafas soltas espalhadas por garrafeiras a preços que rondam os 25/30€.

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