Tapisco (Lisboa)

Henrique Sá Pessoa atravessa uma fase de grande fulgor no seu percurso profissional. Depois de ter terminado 2016 com a conquista de uma estrela Michelin no seu regressado Alma, começa 2017 com a abertura de um novo projecto na zona do Príncipe Real, em Lisboa. O Tapisco (tapa + petisco) tem por conceito os petiscos de inspiração ibérica e entra naquele segmento dos segundos restaurantes dos chefes famosos, que desta forma proporcionam outras abordagens à sua cozinha, abrindo dessa forma o apetite para o trabalho que vão realizando nos seus restaurantes principais.

Localizado a meio caminho entre a Praça do Príncipe Real e o Miradouro de São Pedro de Alcântara, no eixo fulcral que é a Rua Dom Pedro V, o Tapisco ocupa o espaço que foi outrora da Padaria Taboense, como denuncía o nome desta antiga loja histórica de Lisboa que permanece gravado no chão da entrada. Lá dentro encontramos um espaço de decoração moderna, com uma sala distríbuida ao comprido, tendo do lado direito um longo balcão (ou a barra, como preferirem) com bancos altos e, no oposto, uma correnteza de mesas com tampos de mármore, servidas por cadeiras e por um, também ele longo, sofá vermelho. Destaca-se ainda na decoração o painel de azulejos por cima da zona do bar, que é aberto para a rua, onde os passantes ou quem espera por mesa pode beber um copo (realce para os vermutes) enquanto observa o frenesim daquela badalada artéria da capital lisboeta.

Em duas refeições, uma ao almoço ao balcão e outra à mesa ao jantar, a impressão foi a melhor.

Tártaro de Atum com abacate e “ovas” de wasabi. O almoço não podia começar melhor. Um prato fresco e guloso, que chega rapidamente ao fim e apetece pedir mais. As ovas de wasabi são pequenas esferificações que conferem um delicioso travo picante ao prato. Muito bom.

Esqueixada de Bacalao. Um prato com bacalhau cru, uma espécie de versão catalã da nossa punheta de bacalhau. Além de bonito é um prato delicioso. A pureza do bacalhau, a frescura do tomate, o conforto da azeitona preta, tudo embalado pelo tempero do azeite, muito bom. Um prato de Verão e talvez por isso nos soube tão bem, ao ponto de ter sido o único repetente na segunda visita ao Tapisco.

Gambas al Ajillo. Bom marisco, firme e saboroso, num conjunto correcto e com aquele molho que não se resiste a molhar o pão. Ainda assim, para o meu gosto, podiam carregar mais no limão, torna o prato mais fresco e ajuda a equilibrar o seu lado gordo.

Deixando os Tapiscos e entrando nos pratos com mais substância, pedimos o Bacalhau à Lagareiro com batatinhas assadas, que foi preparado com grande mestria no forno Josper à nossa frente. A bela posta de bacalhau que se vê na foto vinha perfeita na cozedura e com aquela goma característica de quem foi perfeitamente demolhada. Ao tentar dividi-la, mal tocámos com o garfo desfez-se em lascas. O resto da história resume-se às batatinhas, ao banho de azeite e a um inusitado travo a frutos secos conferido pelo apontamento catalão do molho romesco. Uma maravilha.

Queimada à nossa frente e fiel à receita tradicional, a Crema Catalana fechou da melhor forma o almoço. É daquelas que faz “crack” quando se quebra o caramelo com a colher.

Ao comermos no balcão do Tapisco também temos a oportunidade de observar de perto o trabalho da equipa de cozinha. Sem grandes azáfamas, com os papeis bem definidos e a denotar grande profissionalismo, os cozinheiros que por ali andavam mostraram sempre ter tudo sobre controlo. Ficámos de frente para o forno Josper e próximos de uma simpática cozinheira que enquanto tratava alegremente das mise en place (dispõe bem ver alguém a fazer o que gosta) nos ia satisfazendo a curiosidade sobre a preparação dos pratos que nos chegavam à frente. Se forem sozinhos ou a dois e gostarem de observar o trabalho dos cozinheiros aconselho uma refeição ao balcão.

Salada de Polvo com vinagrete e paprika fumada. Traída pelo sal a mais e com a batata encruada, de todos este foi o único prato que não deixou saudades.

Choco Frito com maionese de coentros e lima. Perfeito o polme na fritura, seco e estaladiço, delicoso o choco, no sabor e na maciez, um prato viciante e difícil de resistir a comer só uma dose. A maionese, onde a lima atropela os coentros, é quase acessória. Muito, muito bom. Ou brutal, como se diz agora.

Bacalhau à Brás com gema confitada. A gema cozinhada a baixa temperatura é servida no topo do empratamento para ser misturada por nós próprios no momento. O resultado é um Brás suculento e muito saboroso onde se vai encontrado pequenas lascas de bacalhau. Uma versão vencedora desta típica receita. Outro prato muito bom.

Uma das secções da ementa são os Tachinhos, onde podemos encontrar uma Paella Negra, um Estufado de Lentilhas ou uma Açorda de Gambas, que acabou por ser a nossa escolha. Perfeita na textura, fiel aos sabores tradicionais da receita, é um bom prato, mas dentro do registo habitual.

O jantar terminou com o Toucinho do Céu com sorvete de tangerina, uma simbiose perfeita entre o doce, a frescura do sorvete e o conforto das amendoas torradas. Uma delícia. 

Duas excelentes refeições, com boa comida, bom ambiente (com muitos turistas) e um serviço simpático e eficiente. Se bem que sobre o serviço podemos considerar que foi muito melhor ao jantar, na refeição à mesa. Ao balcão quando precisavamos de algo tinhamos de nos virar para trás à procura de um empregado e nem sempre andava por ali algum. Também não se denotava uma grande preocupação no serviço de sala em saber se estava tudo bem com os comensais ao balcão. Valeu-nos muitas vezes os cozinheiros, que acabavam por fazer essa ponte.
Ao jantar a história foi diferente, o serviço à mesa foi sempre muito atencioso, simpático e profissional.

No que toca aos vinhos confesso não dei particular atenção às referências da carta. Deu para perceber que era de média dimensão, os vinhos estavam identificados com as respectivas datas de colheita e os preços eram para turistas de passagem pelo Príncipe Real. As opções a copo não são muitas mas foi por aí que seguímos. Espumante Luís Pato Blanc des Blancs, Implicit Tinto e um Rioja de Alvaro Palácios, o La Vendimia 2015, que foi uma boa surpresa. O serviço esteve impecável. O vinho chegou à temperatura correcta, as garrafas vieram à mesa e o vinho dado a provar e, compensando o preço obsceno, servido em quantidades simpáticas.

Em jeito de conclusão, está mais que aprovado este Tapisco.
Se vêm à procura da cozinha criativa de Henrique Sá Pessoa, esqueçam, recorram ao outro mealheiro e vão directos ao Alma. Se procuram uma refeição descontraida, em bom ambiente, com pratos e petiscos de boa qualidade preparados ao momento com bons produtos, então aconselho vivamente.

Tapisco
R. Dom Pedro V 80, 1250-096 Lisboa
Telefone : +351 213 420 681
Email : [email protected]
Aberto todos os dias das 12:00 às 00:00
Preço médio sem vinho : 30€

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