Vinhos da Semana X

Mais um lote de vinhos provados nestes últimos dias. Desta vez quis o acaso que andasse por gamas mais altas. Boas pingas!

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Começo por um dos gigantes do Alentejo, conforme se deu conta na lista que elaborei há uns meses atrás e que ainda se mantém bem actual. Desta vez com a colheita de 2011 (de excelência como se sabe), que foi bebido num almoço de domingo, entre amigos, à volta de um volumoso cozido à portuguesa. O topo de gama do Esporão, também conhecido por Garrafeira, é hoje produzido a partir das melhores uvas de Alicante Bouschet, Aragonez e Syrah (este cada vez menos em detrimento do Alicante). As castas foram vinificadas em separado e após um estágio em barrica durante 18 meses deram origem ao lote final. Concentrado, rico, num estilo moderno e muito apelativo. Fruta preta, especiarias, notas fumadas, profundo, de taninos redondos e final de grande comprimento. Uma gulosice. Os mais sensíveis à modernidade são capazes de franzir o sobrolho a este Esporão Private Selection Tinto 2011, mas é de tinto de luxo que se trata. PVP 40€.

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O Paço dos Cunhas de Santar é um edifício histórico da Vila de Santar, no coração da região demarcada do Dão e foi adquirido há uns anos pela empresa Dão Sul que o recuperou e adaptou para enoturismo. É nessa propriedade do início do século XVII, de grande tradição vinícola, que está localizada a Vinha do Contador que dá origem aos dois vinhos topo de gama da marca. Um branco e um tinto. Para hoje interessa-nos o Paço dos Cunhas de Santar Vinha do Contador Branco 2009 (uma exclusividade de apenas 2000 garrafas), que bebi recentemente a acompanhar um bacalhau assado caseiro. Encruzado (maioritário), Cerceal e Malvasia. Fermentado em barrica. Pleno de vitalidade. Um vinho cheio, intenso, gordo e estruturado, com a madeira a imperar no aroma e a não deixar brilhar na plenitude o fresco fundo frutado e mineral. A boca atesta que estamos perante um belo vinho, untuoso e rico, de boa acidez e mineralidade, com um final persistente e de grande classe. Gostei muito, mas deixou-me a suspirar pela prova que daria se não tivesse uma barrica tão intrusiva. Deu-se às mil maravilhas com o bacalhau. PVP 23€ (as novas colheitas).

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Voltamos ao Alentejo, agora para um branco que me enviaram para prova de um novo produtor da região. Dos muitos vinhos que habitualmente provo nesta época do ano através dos mais variados eventos vínicos que nos são colocados à disposição, provavelmente os que mais me têm impressionado pela positiva têm sido os brancos do Alentejo. Noto um grande salto qualitativo quando comparados com colheitas anteriores. Vinhos mais precisos e afinados, que procuram a frescura e elegância, com realce para a fruta, em detrimento de maturações e estágios em barrica exagerados. Poderia deixar uma lista de alguns destes vinhos mas fica para outra ocasião, hoje a razão é o Avô Poeta Branco 2013. Antão Vaz da Vidigueira, proveniente de vinhas dos associados da Adega Cooperativa da Vidigueira, onde o vinho é vinificado. A White Portugal dá à luz o primeiro vinho do seu novo projecto e fá-lo de forma muito feliz. Tem notas fumadas que me levaram para um estágio em madeira que o produtor garantiu não ter. Tem fruta branca, saborosa, espevitada por subtis notas vegetais que dão alegria ao aroma. A boca é encorpada, com alguma untuosidade, mas bem balanceada por uma acidez presente. Um estilo acessível e bem desenhado, a mostrar que a Antão Vaz a solo não tem de ser aborrecida. Eu gostei. O rótulo é de cortiça e foi desenhado por jovens designers portugueses e 5% dos lucros deste vinho serão entregues à instituição AMI.

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Costumo dizer, meio a sério meio a brincar, que este é o melhor vinho do mundo na casa dos 20€. Mas mesmo deixando de lado a subjectividade desta brincalhona afirmação, não é fácil encontrar um vinho que nos ofereça tanto neste segmento de preço. O Moscatel Alambre 20 Anos da José Maria da Fonseca é produzido através de um lote de vários vinhos moscatel de colheitas antigas, tendo o mais novo a idade de 20 anos. Isto quer dizer que no lote deste moscatel podemos encontrar vinhos com 70 ou mais anos, o que explica a profundidade e complexidade deste vinho. Passas, nozes, amêndoas, mel, laranja cristalizada, numa complexidade intensa e sedutora. Boca de luxo, com uma elegância e equilíbrio notáveis, entre a textura doce e untuosa e uma acidez fina e afirmativa que harmoniza de forma extraordinária o conjunto. Continua a ser para mim um mistério os Moscateis de Setubal não estarem na linha da frente da preferência dos consumidores. Cá em casa é presença obrigatória e sobejam as desculpas para os abrir seja em que ocasião for. Esta trouxe do Adegga Winemarket e custou-me 21€.

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A visita ao universo da Real Companhia Velha (RCV) que fiz em Abril deste ano terminou na loja da Quinta das Carvalhas para umas compras antes do regresso a casa. Dos muitos vinhos provados nesse fim de semana este foi um dos meus favoritos. Sai do banco de ensaios que é a linha Series da RCV, que vem dar seguimento ao projecto experimental Fine Wine Divison, criado em 1996, com o objectivo de testar novas castas, novas abordagens e novas técnicas, em busca de vinhos originais. Os que resultam bem acabam por entrar no portefólio da empresa. O Real Companhia Velha Series Arinto 2012, está numa fase de grande fulgor, talvez a melhor que lhe conheci. Muito elegante, com fruta fina em forma de aveludadas notas a lima, limão e maçãs verdes. Fundo mineral. Encorpado mas com excelente acidez na boca, garra e nervo, complexo, longo e muito expressivo, num estilo muito sério e inovador. Gostei muito. Custou cerca de 10€ em promoção na loja da quinta.

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O primeiro dia do Encontro com o Vinho e Sabores terminou à mesa, entre amigos que gostam do vinho, no restaurante – wine bar Estado d’Alma. Foi, como é hábito nestas ocasiões, oportunidade de juntar um conjunto esmerado de garrafas para ir apreciando em conjunto. Por entre muita coisa boa que se bebeu e provou acabo por destacar um vinho que quando o provei pela primeira vez me impressionou e agora, ao fim de praticamente um ano, voltei a reforçar a minha opinião. O Fugitivo Vinhas Centenárias 2012 da Casa da Passarella nunca será um vinho consensual. Não tem muita cor, nem muito álcool, nem mesmo muito corpo, mas por outro lado tem tudo o que neste momento ando a valorizar num vinho. Frescura, elegância e acima de tudo… Carácter! Se também andam fartos daqueles vinhos todos iguais encetem uma caça ao homem e apanhem este Fugitivo, vão perceber do que falo. “A concept for wines that happen. They happen in unique conditions in unique years. They happen in very limited quantities. They happen for a constant restlessness, a challenge to all established rules…”

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Want to eat wine? Para terminar e porque nem só de vinho vive o homem, uns chocolates…. de vinho! A Cacao di Vine (que nome tão feliz) nasce do empreendedorismo do chocolatier Nuno Andrade e do sommelier Nuno Jorge que uniram as suas paixões para dar à luz uma marca de chocolates de vinho. Provei da gama Wine Bites, o Touriga Nacional e o Porto Cruz. Com 70% de cacau, o primeiro é produzido com vinho de Touriga Nacional de 2012 e o segundo com Porto LBV de 2001. Gostei de ambos. Mais guloso o Porto, mais contido e aveludado o TN. Como se não bastasse a qualidade do produto, estes chocolates ainda chegam em embalagens muito bonitas, no caso destes Wine Bites com o extra de duas bases de cortiça para copos. Uma delícia.

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