As Lulas Recheadas e o Tons de Duorum.

Tentáculos e abas das lulas, ovo cozido, chouriço de carne, azeitonas pretas e salsa…

Encher com jeitinho…

Lindonas…

Se há prato que me faz recordar a Avó Maria são as Lulas Recheadas, que ela preparava como ninguém. Cresci a vê-la cozinhar, certamente uma das principais responsáveis por esta herança de bom garfo. Cozinheira de mão cheia, deixava a família em delírio quando nos honrava com muitos dos seus pratos emblemáticos. Do maravilhoso arroz de cabidela, com a galinha a morrer ali às suas mãos (soa cruel, mas não há outra forma de dizer), bem à minha frente, aos infindáveis pratos de peixe, onde pontificavam as caldeiradas e os assados no forno, não fosse filha de peixeira. E os Cuscurões do Natal, estaladiços, delicados, com um quase imperceptível travo a aguardente que fazia toda a diferença. Chamava-lhe cozinha de amor.
Mas no meio de toda aquela riqueza gastronómica há um prato que eu gostava especialmente e que relembro com saudade acrescida, as Lulas Recheadas da Avó Maria. Era uma excitação naquela casa quando era anunciado tal festim, reunia-se a família, trazia-se a melhor toalha e o melhor serviço para comungar aquele momento especial. 
Existia um ritual com aquele prato que eu não me atrevia a perder, que começava no Mercado de Alcântara (ainda na Avenida de Ceuta) com a escolha das melhores lulas para aquele preparo. Depois era chegar a casa e colar-me à bancada da cozinha para testemunhar a mestria de toda aquela preparação, da delicadeza da técnica com que se enchiam as lulas, à exactidão das quantidades dos ingredientes que iam colorindo o fundo do tacho, a prepararem cama para a chegada das ditas. Enquanto estas lentamente iam cozinhando, era preparado um puré de batata a passe-vite, adornado no final com umas gotas de limão, que iria servir de companheiro à altura para tão nobre momento. Nunca o termo comfort food fez tanto sentido. 
Depois a Avó partiu e nunca mais comi lulas recheadas como aquelas.
Um destes dias, tolhido pela saudade e farto de provar lulas recheadas a léguas das suas, decidi (tentar) recriar a sua receita. Não era tarefa fácil, até porque me faltava o ingrediente principal, a mão, algo que nos apontava amiúde quando lhe gabávamos os cozinhados. A receita até podia ser seguida milimetricamente, com os pontos de cozedura ao segundo, mas a mão senhores…
Ora, aliada a falta da mão à nabice do escriba, nem o amor foi suficiente para destacar o prato do rol dos que ficam a milhas. Não pensem que não estava bom, estava, mas a mão… Serviu acima de tudo para matar saudades daqueles domingos de casa cheia, com a família à volta da mesa.
Para acompanhar escolhi um tinto jovem do Douro, o Tons de Duorum 2011 do projecto Duorum Vinhos dos enólogos José Maria Soares Franco e João Portugal Ramos.
Os vinhos provenientes desta parceria têm tido imenso sucesso, mostrando uma impressionante relação qualidade-preço em todos os segmentos que estão inseridos.
Este Tons de Duorum é um vinho incrível, que não hesitei em colocar na minha lista das melhores compras de 2012. Por menos de 4€ temos um vinho muito bem feito, que dá imenso prazer e que casou lindamente com o molho das lulas. É comprar sem receios, que boas compras como esta não há muitas.

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