Casa da Passarella – As novidades para 2017

A Casa da Passarella tem sido das coisas mais entusiasmantes que surgiu nestes últimos anos no panorama vínico nacional. Digo-o sem qualquer receio de exagero, tal a qualidade da matéria que sustenta esta afirmação.
A forma como o projecto liderado pelo enólogo Paulo Nunes tem conquistado o seu espaço, alicerçado em bases muito sólidas, com um percurso que nos tem brindado com alguns dos melhores vinhos que actualmente são produzidos em Portugal, é de facto digna de nota. Bem sabemos que não é fácil agradar a gregos e troianos, mas a Passarella, com um portefólio diversificado, das gamas mais baixas, aos topo de gama, passando pelas edições especiais, fá-lo de forma natural e muito bem conseguida.

Por tudo isto, é natural que qualquer apresentação de novidades deste produtor seja sempre encarada com grande expectativa. Foi o caso da mais recente, que ocorreu em Lisboa, no restaurante Sem Dúvida, e que deu a conhecer as últimas da Passarella para o ano de 2017. Desta feita, mais um punhado de novidades de deixar enófilos, winelovers, enochatos e demais tribos vínicas a suspirar.

Antes de passarmos aos vinhos, um pequeno parêntesis, para assinalar o novo vídeo institucional da empresa, que serviu de prelúdio à apresentação. Muito sugestivo e bem feito, consegue captar com precisão e beleza a história do terroir da Passarella. Estão de parabéns os premiados autores.

Esta apresentação contou com  a presença de Miguel Pereira (departamento comercial) e Paulo Nunes (director de enologia).

Agora sim, as pingas. Para começar, uma vistosa vertical de magnums de O Enólogo Vinhas Velhas das colheitas de 2008 a 2012. Um vinho do qual o enólogo Paulo Nunes fala sempre com emoção, quando lembra que nasce de uma vinha velha com 24 castas misturadas, que esteve para ser arrancada e foi salva no último momento. A vinificação é a mais tradicional possível, com fermentação em cubas de cimento, macerações lentas e estágio em barricas usadas.

Em grande forma os vinhos, todos em bom plano, pelo que se pode concluir que esta é uma referência que se dá bem com o tempo de cave e sobe de patamar no formato magnum. Se há característica transversal a todos as colheitas e que pode ajudar a definir um perfil para estes vinhos é a elegancia. Mesmo nos vinhos que se apresentaram mais maduros, existe sempre um traço de equilibrio que sustenta o vinho e nunca o deixa resvalar para o lado madurão. O estilo parece estar bem definido, deixar as vinhas velhas falar e aproveitar a classe e complexidade que estas conferem. Destaque pessoal para as colheitas de 2009 (talvez a preferida nesta prova), 2011 e 2012.
A colheita de 2012 chega pela primeira vez neste formato ao mercado, para gáudio dos muitos aficionados das magnums, a um preço que rondará os 35€.

Depois de uma estreia em cheio, aclamados por apreciadores e imprensa especilizada e colocados no olimpo das listas dos melhores da região, era enorme a curiosidade para conhecer os novos Fugitivos. E mesmo com as expectativas ao alto, estes não só não defraudaram, como trouxeram no Fugitivo Branco um dos grandes brancos para 2017.

Fugitivo Curtimenta Branco 2015 – O enólogo Paulo Nunes diz muitas vezes que trabalhando numa casa com tanta história, que ajudou a demarcar a região do Dão com os seus vinhos de grande qualidade, não faz sentido olhar o futuro sem conhecer e aproveitar o melhor do passado. E é precisamente interpretando a história e procurando conhecer as práticas do passado que se chega a este vinho. Feito à moda antiga, com curtimenta (quando a fermentação do mosto é feita em contacto com a parte sólida das uvas) e o minímo de intervenção possível. Carregado na cor, citrinos e leve floral, fundo mineral, num perfil aromático contido e muito distinto. Cheio de carácter, uma boca estrondosa, profunda, fresca, muito longa e persistente. Grande, grande branco. Mais uma pedra preciosa para o Dão (17,5).

Fugitivo Vinhas Centenárias Tinto 2013 – Sou um adepto confesso desta colecção de Fugitivos, deste perfil de aparência frágil, mas com um carácter enorme, pelo que quando escrevo sobre os mesmos tento conter-me para a emoção não falar mais alto. De aroma profundo, tem alguma fruta vermelha, pimentas, vegetal, notas frescas de especiarias.  Revela boa complexidade, profundo e fresco, com taninos muito finos, acidez perfeita, final de grande comprimento, todo em elegância e equilibrio. Um estilo, delicado e elegante, que é um grande passo em frente para os tintos do Dão. (17,5)

De seguida, subimos um degrau no portefólio e fomos conhecer os novos Villa Oliveira, os topos de gama da Casa da Passarella.

Villa Oliveira Branco 2014 – Mantém-se (e saúda-se) a politica de fazer chegar os topos de gama ao mercado ao fim de alguns anos e se estes vinhos ganham com isso. Este branco, por exemplo, demonstra ainda muita juventude, pelo que apesar de só agora chegar ao mercado o seu auge ainda não foi atingido. Grande expressão da casta Encruzado, excelentes notas de mineralidade e barrica, tudo em bonito diálogo, muita boca, acidez alta, com travo cítrico no longo final. Enorme. Um jovem com muita vida pela frente. (17,5)

Villa Oliveira Vinha das Pedras Altas Tinto 2012 – Depois do muito aclamado Villa Oliveira Tinto 2011, a Passarella deixa o monocasta de Touriga Nacional nesta referência, para entrar no campo do field blend (variedade de castas misturadas na mesma vinha, neste caso cerca de 24, com alguma Baga à mistura). Mas porquê deixar um modelo vencedor para “arriscar” noutro ainda não comprovado? Não seria mais fácil e cómodo replicar a formula anterior? É esta coragem, esta vontade de fazer diferente, de deixar a zona de conforto e querer fazer cada vez melhor, que faz hoje da Passarella, como disse no início do texto, dos projectos mais entusiasmantes cá do burgo. E este novo Villa Oliveira, que chega agora ao mercado, prova que vale a pena arriscar, pois pode muito bem ser o melhor de sempre. Elegância pura, leveza e precisão, barrica, taninos, acidez, tudo em grande harmonia. Um vinho impressionante (18,5).

Villa Oliveira Rótulo Preto – Mas quando a apresentação já ia longa e pensávamos já ter visto tudo, ainda havia uma surpresa guardada. Uma grande surpresa. O primeiro Villa Oliveira Rótulo Preto. Um vinho criado a partir de um blend vertical de todos os Villa Oliveira Branco, do 2010 (nunca editado) ao 2015 (que ainda não chegou ao mercado). Uma referência que pretende sair duas vezes por década, reunindo em lote, vinhos de todos os anos. O resultado é de novo extraordinário. Muito complexo e equilibrado, com as notas de barrica a conferirem volume mas nunca se impondo ao conjunto. Tudo na proporção certa. Uma delícia, cheio, untuoso, um portento de garra e acidez. Um nobre do Dão (18,5).

O que dizer em jeito de balanço destas novidades da Casa da Passarella? Os adjectivos já foram empregues em demasia, pelo que resta apenas apelar para que descubram os vinhos. Alguns não estarão muito tempo no mercado, pois as tiragens são pequenas e a procura muita, mas vale a pena procurá-los, até porque os preços são bem realistas para a qualidade do que vem dentro da garrafa.

Para terminar, breve apontamento sobre o local que acolheu esta apresentação, o restaurante Sem Dúvida. Fica no início da Avenida Elias Garcia, próximo do Campo Pequeno e é um espaço de decoração moderna com a grande sala dividida ao meio por uma parede com um aquário de mariscos. Na parede do fundo, uma grande garrafeira capta os olhares convidando a descobrir a carta de vinhos.

Para esta apresentação foi preparado um menu de quatro pratos que teve início com um Tártaro de Atum com Manga, acompanhado pelo novo O Enólogo Branco 2015 (menos barrica, mais afinado, mineralidade bem vincada, acidez fina e longa, travo cítrico que confere grande frescura). Seguiu-se a Garoupa com Arroz de Lingueirão, que maridou com o Villa Oliveira Branco 2014, depois a Chanfana de Bochecas de Porco Preto com o Villa Oliveira Vinha das Pedras Altas Tinto 2012 (muito bem na maridagem com o vinho), para terminar na Pêra Bêbeda recheada com Queijo da Serra, que casou (menos bem) com o Villa Oliveira Vinha do Províncio 2012.

Um restaurante que não conhecia e que me deixou bem impressionado, tanto pela qualidade das propostas culinárias, de boa confecção e sabores tradicionais bem conseguidos, como pela apelativa carta de vinhos. Ficou a vontade de voltar para confirmar o bom desempenho desta noite.

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