Caves São João 96 Anos de História

Apesar do atraso não poderia deixar de falar sobre o lançamento de mais um vinho que celebra o rumo ao centenário das Caves São João.

Em 2020 as Caves São João celebram o seu centésimo aniversário e as comemorações prosseguem ao longo de toda esta década, com o lançamento anual de vinhos comemorativos, um por cada década de vida da empresa. Todos estes vinhos estão associados a um acontecimento marcante da história da humanidade, mas também da vida das Caves São João. Idealizado pela empresa Quintas Comunicação em conjunto com as Caves São João, este projecto comemorativo teve início em 2010 com o lançamento do vinho 90 Anos de História, dedicado à década de 20, a primeira da vida da empresa. The Jazz Singer, a primeira longa metragem do cinema com sincronização de diálogo, que em 1927 marcou a produção cinematográfica para sempre, foi o acontecimento escolhido para o primeiro vinho deste projecto. Um tinto das Beiras, com Baga da Bairrada e Touriga Nacional do Dão, que também homenageia o primeiro vinho engarrafado pelas Caves São João.

E assim sucessivamente, ano após ano, as Caves São João têm lançado estas séries limitadas de vinhos especiais de grande qualidade, que ilustram a sua história em associação com episódios históricos do século XX.

No final do ano passado foi celebrado mais um aniversário com a apresentação do sétimo e mais recente vinho deste projecto. O 96 Anos de História assinala a década de 80, tendo como tema o lançamento da World Wide Web por Tim Berners-Lee. O local escolhido para esta apresentação foi o secular e prestigiado Hotel Palace do Bussaco, o antigo palácio real mandado construir pelo Rei D. Carlos no final do século XIX, inserido na luxuriante Mata do Bussaco.

O Convento de Santa Cruz do Bussaco, contíguo ao Hotel e onde se encontra a mítica cruz de pedra que ilustra os rótulos dos vinhos Frei João, foi o local escolhido pelas Caves São João para dar início a esta apresentação. Foi no átrio exterior à entrada do convento, onde se localiza a dita cruz, que Célia Alves, Maria de Fátima Costa e Manuel Costa, gerente e proprietários da empresa, na companhia do enólogo José Carvalheira e do responsavel pela viticultura António Selas, fizeram uma pequena apresentação, enquadrando o momento. Antes de passarmos ao interior do hotel, houve tempo para uma breve e interessante visita guiada ao referido convento, peculiar obra arquitectonica que foi retiro religioso da Ordem dos Carmelitas Descalços.

Já no interior do hotel, seguiu-se o almoço de apresentação do aguardado vinho comemorativo do 96º aniversário da empresa, um monocasta de Chardonnay de 1983 (!), que além de celebrar a década de 80 também alude ao rico património de vinhos velhos das Caves São João. Mas a refeição, preparada pela equipa de cozinha do Palace do Bussaco, não serviu só para dar a conhecer o novo vinho do projecto do centenário, houve ainda o lançamento de outra edição comemorativa e um novo azeite. As Caves São João não param e estão a atravessar uma fase de grande felicidade e dinamismo, aproveite-se a onda  e deleitem-se os fans.

Os Vinhos:

Frei João Clássico Branco 2015 – Foi uma das boas surpresas do final do ano passado e do último Encontro com o Vinho e Sabores em Lisboa, momento em que o provei pela primeira vez. Este é o primeiro vinho branco “Clássico”, uma classificação especial, que obriga a determinados requisitos na sua produção, que a Bairrada pretende recuperar com o objectivo de enriquecer a identidade dos vinhos da região. Cerceal (80%) e Bical, com fermentação e estágio em barrica usada. Autêntico e sério, jovem e contido, fresco e estruturado, uma excelente surpresa num branco elegante, com largos anos pela frente, que já dá imenso prazer a beber. Nesta apresentação serviu de vinho de boas vindas, que cumpriu na perfeição devido à sua frescura salivante e, mais tarde, voltou a brilhar à mesa ao acompanhar um bisque de camarão. A relação qualidade-preço é irresistível (17+/15€).

96 Anos de História Caves São João, Chardonnay Branco 1983 – O momento mais aguardado desta apresentação estava guardado para a mesa, quando foi revelado o novo vinho comemorativo do projecto de celebração do centenário das Caves São João. A repousar tranquilamente nas caves da empresa, este monocasta de Chardonnay (casta que existe na Bairrada desde o início do século XIX) viu pela primeira vez a luz do dia agora, mais de 30 anos depois. Após a abertura das garrafas existentes e verificado o estado do vinho, foram de novo engarrafadas, agora em embrulho de luxo, as cerca de 500 garrafas desta edição especial. Carregado na cor, cheio, macio, de fragilidade enganadora e com a untuosidade da casta bem presente. Termina com uma acidez fina e efectiva, que traz profundidade ao vinho e o faz perdurar no final de boca. Um vinho marcante, acima de tudo pela capacidade – rara – de uma empresa produtora portuguesa lançar para o mercado, 33 anos depois, um vinho inédito e com esta qualidade. Só não deve ser bebido muito frio, sob pena de perder metade da graça (17+/60€).

Vinho Abafado Martins da Costa 1960 – As Caves São João tinham guardada uma surpresa para abrilhantar ainda mais a festa. Uma nova homenagem. Desta feita a Manuel Augusto Martins da Costa, pai da actual proprietária Maria de Fátima Costa, e criador de muitos dos vinhos mais simbólicos das Caves São João. Como é o caso deste vinho abafado, produzido por si há 57 anos, que nos transporta aos anos 60 em tributo a um homem que é lembrado pela paixão e imenso conhecimento de fazer vinhos de grande qualidade. Feito a partir de uvas tintas, Baga provavelmente, envelheceu cerca de uma década em barrica e depois em cubas de cimento. Fino e atractivo, com frutos secos no aroma, mais pela elegância que pela concentração, daqueles que se bebe perigosamente bem. Um licoroso diferente e muito interessante, que encaixou bem nos sabores de um petit gateaux de caramelo (17/65€).

Aguardente Velhíssima 1965 – A acompanhar os cafés foi altura de relembrar a edição especial dos 94 Anos de História das Caves São João, em que os Beatles foram o tema para a celebração dos anos 60. Não sou um grande conhecedor, nem apreciador em geral, de bebidas destiladas, mas esta aguardente muito velha não deixa ninguém indiferente e impressiona pela forma macia e aveludada que nos invade o palato. Um sonho para apreciadores (250€).

Espumante Luiz Costa 2014 – Estando na Bairrada em almoço de celebração, este não poderia terminar sem um brinde. Luiz Costa foi um dos irmãos que geriu as Caves São João durante muitos anos, uma grande figura da região e um acérrimo defensor da utilização de castas estrangeiras na Bairrada. Teve a capacidade de ver mais longe e ter encetado um caminho de modernidade, tanto na enologia como na viticultura, que permitiu as Caves São João ser o que são hoje. Falecido em finais de 2012, tem em sua homenagem este vinho espumante com o seu lote de castas favorito, Chardonnay e Pinot Noir. É um Bruto Natural, o que quer dizer que não tem açucar adicionado (se querem saber mais sobre o assunto o caminho é este), o que o torna um vinho mais sério, para um consumidor mais exigente. A boa acidez confere-lhe frescura e as notas de panificação complexidade, num conjunto delicado, de bolha fina e persistente (17/17€).

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