Costa Alentejana

ACTUALIZADO EM ABRIL DE 2019

Apesar do título referir a Costa Alentejana, a publicação, por uma questão de conveniência pessoal pois é durante a incursão litoral alentejana que me estico até este lado do Barlavento, começa em Alcácer e só termina na Ponta de Sagres. São 200 km de praias, algumas das mais belas do país, dos areais virgens e imaculados da Torre, passando pelas enseadas idílicas das Furnas, Carvalhal ou Odeceixe, aos paraísos surfistas da Arrifana e Castelejo. Apesar da grande transformação desta região durante os últimos anos, com uma crescente afluência turística, ainda se mantém um território pouco povoado, sem grandes centros urbanos nem grandes empreendimentos turísticos. O chamamento da natureza continua a ser a palavra de ordem para a maioria dos visitantes. As boas mesas também não faltam. A proximidade ao mar não podia deixar de trazer os melhores peixes e mariscos às cartas dos restaurantes, numa cozinha regional bem interpretada, onde também não faltam os vegetais e alguns pratos de carne. Aos poucos, por influência turística, foi-se diversificando a oferta e hoje existem muitas outras propostas na região. Da cozinha étnica à vegetariana, passando pela cozinha saudável, são muitas as novas opções para o visitante. E se muitas esbarram na inevitável banalidade das novas tendências, outras, com mais substância, merecem  a nossa atenção, principalmente na altura que nos apetece variar. Calcem os chinelos e façam o favor de fazer boa viagem…

A Escola, em Alcácer, é um dos clássicos da região. A antiga escola primária deu lugar a um restaurante de cozinha tradicional alentejana onde o receituário regional é muito bem tratado e onde tem na Empada de Coelho Bravo o seu maior ex libris. Antes da refeição, para os aventureiros, impoe-se um mergulho na Praia da Torre, um areal praticamente deserto, a que se chega depois de atravessar os arrozais desta localidade (passando o restaurante Dona Bia, vira-se à direita para uma estrada de terra batida) e transpor a duna que os separa do mar. Vale o esforço da caminhada para ver o paraíso tão de perto.
Em Sines, o Estrela do Norte é lugar de peregrinação pela feijoada de búzios. Mas as ameijoas, frescas e carnudas, não lhe ficam atrás. Para terminar em beleza, pondo o fígado à prova, um (bom) pudim abade de priscos. A carta de vinhos é boa, os copos acompanham, mas os preços são para turista. Temos sempre a cerveja. Preço médio sem vinho, 17€.
Porto Covo e o seu centro histórico bem preservado merece uma visita. Nas proximidades são atracções a Ilha do Pessegueiro e algumas das melhores praias da região.
Vila Nova de Milfontes, apesar de ser o ponto turístico mais massivo de toda a região, continua a ser uma das mais típicas povoações do Sudoeste Alentejano e lugar onde se come bem.
A Tasca do Celso já leva quase vinte anos a encantar comensais com a sua boa comida regional. Lembro-me dela quando ainda era um pequeno restaurante, naquela sala rústica, com lareira, onde ficávamos a partir nozes e amêndoas pela noite dentro, por entre conversas e gargalhadas. Hoje cresceu, modernizou-se, passou a ser atracção turística, e apesar da cozinha continuar a manter um grande aprumo pela gastronomia da região, o encanto já não é o mesmo. As opções da carta são muitas e boas, com destaque para as saladinhas, de ovas, ou de búzio, ou de polvo, os arrozes (com o de ameijoas à cabeça), as açordas, os peixes frescos para a grelha, as carnes de porco alentejano e, o (famoso) bife à la plancha. Nos vinhos a carta é forte, o serviço e os copos também, os preços são para turista. De saudar o serviço de vinho a copo, com muitas referências e servido generosamente. Um lugar que é uma instituição na restauração do Sudoeste Alentejano e que continua a atrair forasteiros a Vila Nova de Milfontes.
O Rio Mira em Vila Nova de Milfontes possibilita uma grande variedade de actividades náuticas.
Ainda em Milfontes, há um lugar mais recente a ter em conta. Um lugar improvável, pela oferta e pelo conceito pouco visto por estas bandas. A decoração étnica do Ritual deixa antever uma volta ao mundo gastronómica que nos leva de Portugal à Tailandia com passagem por Espanha, Itália, Marrocos, Paquistão, só para apontar as cozinhas mais óbvias. Aqui comi o melhor caril de camarão que tenho memória. A carta é vasta e reúne uma oferta muito variada, mas impõe-se sugerir os bifes, os hambúrgueres, as tapas, os pratos vegetarianos, o caril, as saladas, em especial a de queijo de cabra e os pratos tailandeses, todos óptimos. A carta de vinhos não é muito extensa e podia ir mais além nas opções adequadas a estas gastronomias. Os preços, tanto do vinho como da comida, estão no limiar do aceitável. De qualquer forma, uma excelente opção para fugir à oferta habitual que existe na vila.
Ainda em Milfontes, dobrando a Praia do Farol em direcção ao restaurante A Choupana (com vista privilegiada sobre o mar e o por-do-sol) vamos ter a uma das imagens mais improváveis que a região tem para nos oferecer. Uma instalação de mariolas, que pintam o areal em tons de pedra e que já se tornaram motivo de romaria.
A Praia das Furnas, ao fundo na foto, é uma das minhas favoritas da região e se virem este sensacional video percebem facilmente porquê. Na baixa mar, dobrando a falésia a Sul, qual “Abre-te, Sésamo”, temos acesso a um paraíso de enseadas no seu estado mais puro.
Não há ida à região que não conte com o tradicional passeio pelo Cabo Sardão. O farol bem preservado, as escarpas de cortar a respiração e…
…o campo de futebol com a melhor vista que conheço, são os motivos ideais para uma tarde bem passada, enquanto se alivia a digestão para o próximo mergulho.
O Tarro em Odemira é o restaurante mais conveniente da Costa Alentejana. Além de se encontrar no perímetro de uma bomba de gasolina e ter uma farmácia mesmo ao lado, a cozinha não fecha e por esse motivo é sempre uma das primeiras opções quando saímos tarde da praia e cheios de fome. Além disso há gente profissional a receber-nos, que tem prazer no que faz e isso reflecte-se nos pratos bem confeccionados que chegam à mesa. Na foto, o arroz de tamboril, uma das muitas opções da carta, que também oferece pratos mais simples, como tostas ou pizzas.
De há uns anos a esta parte, outra das grandes atracções de Odemira é a casa dos Chocolates de Beatriz. Lembram-se do filme Chocolate, onde Juliette Binoche vai desassossegar uma comunidade com os seus deliciosos chocolates? Aqui a protagonista é Beatriz, uma argentina da Patagónia que se fixou em Odemira e abriu uma fábrica de chocolates artesanais. O que ao início parecia uma ideia meio louca, rapidamente se tornou num dos lugares mais especiais da região. Curiosamente é no Inverno quando mais gosto de lá ir. É nessa altura que tudo ali faz sentido. O som dos pássaros e do rio, as mantas nas cadeiras, os bules de chá a fumegar, o cheiro a chocolate, toda aquela envolvência rústica que nos transporta para uma atmosfera muito especial. Para ir sem pressas.
Já foi tasca de pescadores e depois tornou-se uma referência na zona da Zambujeira para comer peixe fresco e pratos tradicionais da região. Além da bateria de peixes para a grelha, O Sacas ainda tem um menu fortíssimo: Caldeirada, Fricassé de Safio, Ensopado de Pescada com Camarão e Ameijoas, Feijoada de Lapas, Feijoada de Buzios, Raia à Francesa, Sopa de Peixe, Moreia Frita, entre outros. É ir com fome.
A frescura e o preço dos peixes e mariscos do A Azenha do Mar sempre atraiu muita gente, mesmo na época que ainda era um segredo bem guardado. Após as Time Outs desta vida terem posto a boca no trombone passou a ser uma das maiores romarias da Costa Alentejana. Como não fazem reservas, preparem-se para esperar muito e se forem resilientes o suficiente serão brindados com as especialidades, pescadas logo ali ao lado, que fizeram a casa. Este ano mudou de gerência e ainda não fui lá, mas pelos relatos nas redes sociais parece que se mantem tudo igual.
Apesar dos preços cada vez mais turísticos, nos mercados locais ainda se encontra o tal melhor peixe do mundo…
…Assim como no Café Central, na pequena povoação do Brejão. Lugar simples que ganhou fama à conta da excelência do peixe que serve, vindo directamente dos mares da região (muitas vezes pela mão dos próprios pescadores). A oferta centra-se nos peixes frescos para a grelha (assados com mestria), nos mariscos, nos arrozes, e nos pratos de carne de porco tradicionais do Alentejo. Antes ou depois, não se perca um mergulho nas maravilhosas praias que ficam mesmo ali ao lado…
…como a Praia do Carvalhal (na foto), ou uns kms mais acima, a secreta Praia da Amália. Um luxo como poucos.
A Praia de Odeceixe é um clássico da região e ganhou uma dimensão verdadeiramente nacional quando serviu de cenário para uma das temporadas da série juvenil, Morangos com Açucar. As falésias de ambos os lados protegem-na dos ventos e a Ribeira de Seixe (ao fundo na foto) é uma delícia para os mais pequenos.
São muitos degraus até chegar lá abaixo, mas na Praia do Vale dos Homens podemos contactar com a natureza no seu estado mais puro.
O paraíso surfista da Praia da Arrifana é um dos maiores postais da região.
O Mó Veggie Bistro é um lugar alternativo para fugir ao habitual da restauração por estas paragens. Um espaço no centro de Aljezur onde outrora funcionou uma moagem, que tem no menu uma oferta totalmente vegetariana. Há boas saladas, sopas, sandes, hamburgueres, sumos naturais, vinhos e cervejas artesanais. Para quando apetece uma refeição diferente num espaço diferente.
Termino a caminho da Ponta de Sagres, onde o final do dia no Castelejo é dos momentos mais fantásticos de uma ida à região. Um areal dourado, pouca gente (na sua maioria surfistas) e uma envolvência de mar e arribas que nos deixam em estado de contemplação. À vinda, o Restaurante da Praia do Castelejo , insinua-se do cimo da arriba, com a sua esplanada virada para o espectáculo do por-do-sol. Mais uma vez a ementa anda à volta do que melhor se cozinha por aqui, os peixes, os mariscos e todos os petiscos a eles associados. Destaque-se também as cataplanas, que já estamos em terras Algarvias e aqui não são esquecidas.

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