Meruge | do vinho à gastronomia

Stellaria Media. Um nome que não nos diz muito e que nunca imaginámos associado ao vinho. De facto, este é o nome cientifico de uma planta silvestre de Inverno, que nasce em zonas húmidas, de lameiro, em solos frescos, fundos e férteis e que em Portugal se pode encontrar por exemplo na região de Trás-os-Montes. Reconhecida principalmente pelo seu uso medicinal, é também utilizada na culinária, em saladas, temperos ou sopas. O seu nome comum é Morugem, mas em algumas zonas do país é também conhecida por Merugem ou Meruge e é aqui que começamos a ver o vinho ao fundo do túnel. Meruge é uma das mais importantes marcas do portefólio da duriense Lavradores de Feitoria, composta por vinhos criados na Quinta de Meruge, uma propriedade em São João da Pesqueira – das muitas do universo dos associados desta empresa – baptizada com este nome devido às muitas ervas silvestres que por ali habitam juntamente com as vinhas.

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A marca Meruge nasce em 2003 com a produção de um vinho tinto maioritariamente de Tinta Roriz, de uma parcela virada a norte na Quinta de Meruge, que procurou ser desde a primeira hora um vinho que pudesse expressar a leveza e elegância do Douro, piscando o olho a um estilo internacional. Mais tarde, em 2009, e depois de consolidado o sucesso do tinto, nasce o branco, que tem o conceito oposto, procurando corpo e opulência, mostrando que o Douro também permite bons brancos em barrica.

Foi esta associação, entre o vinho/ Quinta de Meruge e a planta Morugem/Meruge, que deu o mote para a prova vertical e apresentação de novas colheitas, que ocorreu em Lisboa, na Taberna da Rua das Flores de André Magalhães. Para que a experiência fosse completa, com Olga Martins (CEO da Lavradores de Feitoria) e Paulo Ruão (director de enologia), veio também Graça Saraiva, da empresa Ervas Finas, que trouxe consigo as ditas Morugens (e demais espécies) que engalanaram o menu preparado pelo anfitrião André Magalhães.

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Olga Martins e Paulo Ruão

A prova vertical, dividida entre brancos e tintos e apresentada pelo enólogo Paulo Ruão, teve os seguintes vinhos: Meruge Branco das colheitas de 2010, 2011, 2012, 2013 e 2015 (novidade) e Meruge Tinto das colheitas de 2003 (o primeiro Meruge), 2007, 2009, 2010 e 2014 (novidade). O branco é um monocasta de Viosinho, com fermentação e seis meses de estágio em barrica, seguindo-se outros seis em garrafa. Já o tinto é produzido com vinhas de meia idade em solos xistosos, a 400 metros de altitude, maioritariamente provenientes da Quinta de Meruge. O lote é composto por Tinta Roriz, secundada por alguma vinha velha de Touriga Nacional e Touriga Franca. O resultado são dois vinhos totalmente distintos.

Os brancos mostraram-se encorpados e cheios, de tom carregado, onde a fermentação em barrica lhes confere características de branco de inverno. Fruta madura, por vezes cozida ou assada (nas colheitas mais antigas), regra geral bem integrada na barrica, que depois é muito bem equilibrada por uma boca cheia mas fresca, com excelente acidez. Por vezes a sugestão do aroma é de um vinho mais pesado, algo que a prova de boca acaba por desmentir, como é o caso do 2010 que atravessa um excelente momento, a mostrar que estes são brancos que não se assustam com o tempo de cave.

O Meruge Branco 2015, que agora chega ao mercado, vem dentro da mesma linha. Com sugestões de citrinos maduros, fruta branca e ervas frescas no aroma, mostra apesar da juventude uma barrica muito bem integrada. A boca tem bom corpo e estrutura, é cheia mas com uma acidez fina que traz frescura ao conjunto, persistente, com um suave fundo mineral que a torna muito atractiva. São apenas 3000 garrafas, que chegam ao mercado ao preço de 20€ (17).

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Passando para os tintos, encontramos um estilo mais leve, de cor aberta e muito atractivos aromaticamente, com a fruta madura embalada pela barrica, quase sempre sem excessos, que dão origem a vinhos marcados pela elegância. Boa prova do 2003, a mostrar boa evolução e a dizer-nos que, à semelhança dos brancos, também aqui estamos à vontade para os guardar em cave. Os restantes tintos também se mostraram bem, com um 2007 afinado e fresco, enquanto os 2009 e 2010 mais redondos mas sempre com a elegância em fundo.

A novidade dos tintos foi o Meruge Tinto 2014, que apesar da evidente juventude mostrou um aroma muito atractivo, menos focado na fruta, que é vermelha e fresca, para encantar nas notas terrosas e de tabaco. A boca tem um bom fundo mineral, com taninos macios e uma acidez refrescante, num conjunto bem gastronómico, que ganha se for bebido ligeiramente mais fresco. 10.000 garrafas que chegam às prateleiras pelo preço de 20€ (17+).

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Graça Saraiva e a Meruge

Terminada a prova dos vinhos e em jeito de introdução para o almoço que se seguiria, houve lugar a uma entusiasmante aula sobre ervas aromáticas e plantas comestíveis, por parte de Graça Saraiva do projecto Ervas Finas. A forma apaixonada como ia apresentando o conjunto de espécies que trouxe do seu jardim encantado em Vila Real, envolveu toda a gente e abriu ainda mais o apetite para o almoço. Capuchinha Vermelha, Urtiga, Zimbro, Carqueja, Pimpinela, Camomila e a já referida Morugem (ou Meruge), foram algumas das espécies que representaram este maravilhoso e ainda desconhecido mundo.

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André Magalhães e o menu preparado para o almoço Meruge.

O almoço, preparado pelo anfitrião André Magalhães, foi de recorte regional e deu especial destaque a estes ingredientes. Covilhetes com Salada de Meruges, Caldo de Urtigas com Salpicão, Bacalhau com Feijocas, Posta de Vitela com Arroz de Repolgas e Castanhas e, para terminar, Marmelada florida e Queijos Transmontanos. Uma refeição de tradição e conforto, enobrecida pelos vinhos da Lavradores de Feitoria, que foram servidos sem ordem, a bel-prazer dos manducantes.

Nota : As fotos são do sobredotado Ricardo Bernardo

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