Teixuga Branco 2013

Acabou de nascer mais um grande vinho branco no Dão, numa região que se afirma cada vez mais como berço de alguns dos melhores brancos do país. Chama-se Teixuga e é o novo topo de gama do produtor Caminhos Cruzados.

A Caminhos Cruzados é uma empresa produtora recente (2010), de Nelas, lugar de origem dos seus proprietários, que tem vindo a distinguir-se como um projecto de bases sólidas e que tem merecido, com a marca Titular, a atenção por parte de críticos e apreciadores.

Titular Tinto

Paulo Santos, empresário textil que decidiu embarcar nesta incursão pelo sector dos vinhos, acompanhado pela sua filha Lígia e os enólogos Manuel Vieira e Carlos Magalhães, vieram a Lisboa, ao Espaço Kuc, apresentar esta novidade, bem como as novas colheitas da marca Titular. Uma apresentação que foi abrilhantada pelo menu preparado pelo chef francês Vincent Farges, que deixou a Fortaleza do Guincho (e muitas saudades) faz agora um ano, mais coisa menos coisa.

Teixuga

Paulo e Lígia Santos na companhia de Vincent Farges durante o jantar de apresentação da Caminhos Cruzados.

Os Vinhos :

Titular Rosé 2015 – Servido em modo de bebida de boas-vindas. É um monocasta de Touriga Nacional, com uvas seleccionadas propositadamente para a produção deste vinho rosé. Carregado na cor. Aroma dominado pelos frutos vermelhos com suaves nuances florais. Com corpo e volume de boca. É bem equilibrado por uma agradável acidez (5€ / 15,5).

Titular Encruzado/Malvasia Fina 2015

Titular Encruzado/Malvasia Fina 2015 – Servido já há mesa, a harmonizar com o menu de Vincent Farges. Perdeu a madeira e ganhou elegância. Aroma jovem e apelativo, com citrinos e suaves notas florais. Na boca mostra boa untuosidade e acidez, o que em conjunto com o leve fundo mineral o torna num conjunto fresco e com boa aptidão gastronómica. Deve evoluir bem em garrafa (9€ / 16).

Titular Jaen 2014

Titular Jaen 2014 – Esta colheita não é uma novidade, no entanto o vinho tem tido uma evolução muito positiva na garrafa. Ligeiro na cor. Sem barrica (mas no primeiro impacto até parece que tem). É um tinto leve e fresco, de aroma intenso e cativante, com sugestões de fruta vermelha e agradáveis notas vegetais. Com taninos finos, a frescura da região reflecte-se na boca, num perfil fino, elegante e com carácter. Ganha ao beber-se levemente refrescado (7€ / 16).

Teixuga

Teixuga Branco 2013 – Manuel Vieira, enquanto enólogo da Quinta dos Carvalhais, costumava dizer que as melhores uvas de Encruzado que lhes chegavam às mãos eram as compradas na Quinta da Teixuga, em Nelas. Mal sabia que o destino o iria levar, anos mais tarde, a trabalhar na empresa que adquiriu a referida propriedade. E foi aí, em contacto directo com o terroir das vinhas velhas de Encruzado da Quinta da Teixuga que este vinho começou a ser desenhado. A troca de ideias e opiniões com o seu colega Carlos Magalhães foi longa, mas muitos cabritos depois (era o prato com que colocavam o vinho à prova), foi atingido o perfil pretendido.

Vinhas velhas, maioritariamente de Encruzado. 18 meses em barrica. Um vinho que rompe com o perfil mais moderno dos Titular. Ao levar-se o copo ao nariz percebe-se de imediato que estamos perante um vinho rico e de grande complexidade. Barrica de muito boa qualidade, bem integrada na fruta branca madura e nos citrinos verdes, que transmitem uma sensação de frescura e equilíbrio. Também surgem algumas sugestões de mel e de frutos secos. Tudo sobre um vincado manto mineral. A boca confirma em tudo o nariz. Rico e concentrado. Com carácter. Muito fresco e mineral. Com acidez vibrante e uma untuosidade delicada. O final é muito longo, com a acidez fina a perdurar na boca durante muito tempo. É um branco de topo, à imagem dos melhores brancos que estão a ser produzidos na região. Ainda está jovem e por isso é vinho para guardar em cave e ir acompanhando a sua evolução. Isto se conseguirem guardar um vinho destes (30€ / 17,5).

O Menu :

O nome de Vincent Farges está intimamente ligado ao sucesso da cozinha do restaurante Fortaleza do Guincho. Durante dez anos (2005-2015) chefiou a brigada desse restaurante e mostrou uma cozinha de base francesa, país do qual é natural, mas sempre com uma abertura para se deixar influenciar pelo melhor dos nossos produtos. É conhecida a sua paixão pelo nosso peixe (Vincent chegou a Portugal em 1998), mas também pelos legumes e ervas aromáticas. Outra paixão são os citrinos. O fascínio pelos citrinos de Jean-Paul Brigand (produzidos na Costa Alentejana) também passaram a ser uma das suas imagens de marca e deixaram saudades os jantares temáticos inspirados a partir desses exóticos frutos. A consistência da sua cozinha foi ao longo dos anos agraciada com uma estrela no guia Michelin, mas foi ganhando peso a sensação que a segunda estrela lhe faria mais justiça.

Vincent Farges - Teixuga

Vincent Farges - Teixuga

A preparação do jantar…

A precisão, harmonia e delicadeza que coloca nos seus pratos, foi agora recordada neste regresso a Portugal para o jantar de apresentação dos vinhos Caminhos Cruzados. Um menu à sua imagem. Saboroso, belo, de técnica apurada, em precisa comunhão com os vinhos.

Os Canapés que acompanharam o Titular Rosé: Cidrão-pêra com paprika. Batatinha recheada com chispe e orelha, lascas de parmesão e coentros. E Mozza’Serra, geleia de flor de laranjeira e telha de cereais. Depois, para amuse bouche, os Legumes da Quinta do Poial em caldo perfumado com rosas Cécile Brunner, um prato a fazer lembrar a Fortaleza, que harmonizou com o Titular Encruzado-Malvasia.

Legumes da Quinta do Poial e caldo perfumado com rosas Cécile Brunner

Ainda com o Encruzado-Malvasia, o Lírio marinado com pimenta, butarga e coulis de agrião, que trazia um ligeiro travo limonado que encaixava que nem um luva no vinho.

Vincent Farges - Teixuga

De seguida, o Consommé de Carabineiro, ervilhas e rau ram, que harmonizou inesperadamente bem com a leveza do Jaen.

Teixuga - Vincent Farges

A Garoupa assada, Espargos, molho de Limão, Cevada cozinhada com Bivalves e Tomate confitado, já teve a companhia do Teixuga Branco, que harmonizou bem mas deixou clara a sua aptidão para pratos de mais substância.

Teixuga - Vincent Farges

Arriscada foi a combinação do Teixuga com a sobremesa, o Biscoito de Pistácio e Framboesas, Morangos macerados com Poejos e Sorvete de Iogurte, que na minha opinião até não correu mal, apesar do prato retirar ao vinho muita da acidez que o caracteriza, bem como o seu lado frutado.

Palavra final de parabéns para a Caminhos Cruzados, por este novo vinho, que irá com toda a certeza caír no goto dos mais exigentes apreciadores. Seguir a sua evolução trará muitos momentos de prazer.

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